Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram,
Quando por dentro eu sei que choram.
.......

Mesmo que chova no Verão,
Queres dizer " Sim " mas dizes " Não "
.......

Vamos fazer o que ainda não foi feito







terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Casa do Alpendre

Dedico este pequeno conto a uma amiga especial .

Era mais um final de tarde igual a muitos outros, Mário ouviu o estrado de madeira ranger nas suas costas, cada passada fazia cada tábua de madeira tremer o pequeno banco onde estava sentado com a pequena cana de pesca na mão aguardando que um peixe mais distraído fosse morder o isco improvisado com os restos do jantar do dia anterior. Como sempre , sentiu uma mão pousar sobre o seu ombro e escutou a voz de Isabel a dizer que estava a ficar fresco, se ele não queria vir para casa que ela tinha preparado um chá de cidreira.
Recolhidos os artefactos e devidamente aconchegados numa cesta de verga que já tinha varias partes quebradas foram caminhando lentamente ao som das tábuas de madeira que rangiam a cada passo, Mário pegou na mão de Isabel e aqueles metros que os separavam do pequeno pontão que terminava na margem do rio ate á casa foram percorridos como que voando sobre nuvens fofas.
Ambos subiram os seis largos degraus e chegados ao alpendre soltaram as suas mãos e olharam ambos para o rio com a sua pequena queda de agua sobre pedras polidas vendo como o Sol fazia reflexo no mesmo dando-lhe um ar de espelho, todo o verde que rodeava a casa estava espelhado naquele rio, um rio sem nome mas que era deles.
Já com duas canecas de chá quente sobre a mesa de verga e sentados em duas confortáveis cadeiras também de verga recheadas com pequenas almofadas para maior conforto, fizeram um brinde tal como sempre faziam no momento em que ambos bebiam algo em comum, fosse chá , vinho ou outra bebida qualquer, só não o faziam com agua, pois Isabel dizia que brindar com agua era mau prenuncio.
Aquele alpendre era o perfeito convite ao silencio era um alpendre largo onde de forma desafogada estavam uma grande mesa e oito cadeiras, duas camas de linho cru seguras por fortes cordas em dois ganchos e a pequena mesa e duas cadeiras que servia , para ambos tomarem as refeições em dias de clima ameno e para saborearem o chá que ambos tanto apreciavam, que era sempre tomado ao final da tarde naquele local independentemente do clima , pois o que variava era apenas a roupa que vestiam para aquele momento solene que era um dos prazeres da vida de ambos. Uma vez Isabel abordou o assunto sobre o facto de não saber se algum dia iria conseguir beber o cha naquele alpendre sozinha, mas Mário logo lhe fez um sinal colocando o dedo na forma vertical sobre os lábios para que ela não terminasse o seu raciocínio, tinha sido a primeira e a ultima vez que tinham abordado o assunto daquele prazer poder vir a ser abordado individualmente.
Tudo que se avistava daquele alpendre alem do rio que parecia que sempre procurava o brilho do Sol para ser espelhado era um enorme relvado muito verde que era cuidadosamente tratado por ambos com a ajuda de dois carrinhos corta relva comprados em segunda mão, eram momentos que a ambos fazia lembrar os tempos de escola, pois era um momento de brincadeira e disputa por aquele que de forma mais rápida cortava o seu espaço de relva, um ritual que sempre terminava com um brinde com sumo de laranja, espremido com a força da mão sobre pequenos copos, era um sumo doce que Isabel apelidava de laranja de mel, eram sumarentas laranjas colhidas da grande laranjeira que estava ao lado da casa.
Aquela casa quase podia ser resumida ao alpendre, tinha quase tanto de alpendre como de interior, mas era esse mesmo o seu segredo , o seu alpendre e os prazeres que se desfrutavam no mesmo, passada a porta de acesso á casa existia uma sala ampla com um grande lareira central com uma enorme chaminé em tons de cobre que não só servia para aquecer a casa nos dias frios como servia para aquecer a agua para o chá ou apara pequenas refeições, a um canto da sala dois confortáveis sofás individuais sobre uma carpete de pelo grosso totalmente ocupada por almofadas convidativas para alguém se deitar, bem ao estilo árabe de tanto agrado de Isabel. Sem separação um pequeno local onde era possível lavar a pouca louça que ambos sujavam e um pequeno fogão que servia para preparar as pequenas refeições que ambos tomavam, uma cama na outra ponta da sala de costas para uma grande janela era o local onde ambos ansiosamente esperavam o dia seguinte aproveitando para retemperar as forças e redobrar os sonhos, uma pequena porta dava acesso a um pequeno quarto de banho composto por um lavatório sanita e um chuveiro que cada vez debitava menos agua por força do calcário que ia ficando agarrado aos velhos canos. Não existia televisão ou telefone, existia apenas algo que destoava no meio de toda aquela ciência de vida ao estilo Carmelita, era o que eles carinhosamente chamavam do “arroba “ era um computador portátil com uma ligação sem fios á net , mas que apenas era ligado uma vez por semana para ver se existiam mensagens dos filhos e para eles informarem os filhos que tudo estava bem com eles. Uma vez por mês enviavam um mail para o Sr Fernando que tinha um pequeno supermercado na localidade mais próxima que distava cerca de 40 km com a lista de compras do mês, o Sr Fernando pouco dado a estas modernices tinha aceite ligar a net ao seu computador que servia de caixa registadora apenas para servir estes clientes, ele lia a lista das compras enviada por mail , colocava tudo dentro de um carrinho fazia o carrinho passar pela caixa onde ele ia registando cada produto como se o cliente tivesse presente e assim que tinha obtido o total enviava um mail com o valor total, mail recebido e o valor total acrescido da taxa de entrega previamente acordado era por instrução bancária depositado na conta do Sr Fernando, depois era esperar pelo dia seguinte e ver a poeira a ser levantada pela velha Ford transit que chegava sempre entre as 10.30hrs e as 11.00hrs da manha como ele gostava sempre de realçar como se isso fosse importante para os seus clientes, pois nem usavam relógio nem se preocupavam com as horas, para eles havia dois horários o dia e a noite e duas sub-divisões o amanhecer e o por do sol, tudo o resto era o relógio biológico deles que ditava o que se fazia. Com a cumplicidade de D.Graça e Sr António que trabalhavam nos correios da vila e que tinham casado depois de vários anos partilhando selos e registos, a correspondência era entregue ao Sr Fernando que a transportava sobre o banco do passageiro, eram pequenas contas de agua, luz e extractos de banco, as contas eram de imediato pagas através do Arroba e os extractos do banco iam de imediato servir de combustível para aquecer a agua do próximo chá. Uma vez ou outra lá vinha uma encomenda maior e mais pesada, algum livro encomendado e pago pelo sempre solicito Arroba que apenas servia para juntar Isabel e Mário ao mundo civilizado, situação que eles permitiam pois sabiam que a qualquer momento com a ajuda de um simples toque no rato estavam de novo de volta ao seu mundo.
Num dos vários momentos de divagação que ambos tinham chegaram a pensar em comprar um pequeno carro para irem á vila e desta forma dispensavam o Arroba, mas logo concluíram que sair daquele mundo era desperdiçar momentos da vida.
Quem seria o presidente da Republica ? será que viviam ainda numa republica ou já seriam uma monarquia ? Estaria a decorrer a 3ª guerra Mundial ou será que essa já tinha terminado e estava-se á porta da 4ª guerra Mundial, será que o mundo Arabe já tomou de assalto o mundo Ocidental ? ou já passaram imagens na televisão de mulheres muçulmanas a queimar as burcas tal como as Ocidentais fizeram em tempos com os soutiens ?, tudo isto eram perguntas que podiam ser feitas por Mário e Isabel , mas que nunca tinham sido feitas nem nos momentos de maior solidão individual, eles não faziam estas perguntas , apenas queriam saber se o outro estava bem.
A Chegada da Ford transit do Sr Fernando do supermercado era um momento alto , assim que Isabel ou Mário avistavam a poeira da estrada a ser levantada ao longe , embora sabendo que ainda demorava uns 5 minutos a chegar, logo desciam as escadas que davam do alpendre para o relvado para percorrer os poucos metros ate onde terminava a estrada de terra batida que vinha desde a vila. Entregue os sacos com as compras do mail e o correio , Sr Fernando tentava sempre matar a curiosidade sobre o facto daquelas duas pessoas viverem ali isoladas sobre o rio, mas as tentativas que sempre fazia para obter dados concretos sobre Isabel e Mário batiam no muro de silencio, desta forma Sr Fernando não podia regressar á vila com motivos para especular, já muito se tinha especulado, sobre estes estranhos habitantes , ate o graduado Gomes da policia local tinha ido um dia fazer uma visita para tentar saber ao certo o que aquelas criaturas faziam na berma do rio numa casa em traves de madeira construída em poucos dias por técnicos vindos da cidade que tinha uma grande placa no final da estrada de terra batida que dizia :

CASA DO ALPENDRE
“ A NOSSA “

2 comentários:

Anónimo disse...

Aquele autor ilustre, que é português mas que reside na Espanha, se por acaso lesse o seu conto diria:
'Puxa, o autor escreveu a possível continuidade daquele conto..como é mesmo o nome? Ah, sim - 'O conto da ilha desconhecida'.

O homem segue em busca da lha e encontra na mulher que está ao seu lado,aquela que poderia e talvez fosse mesmo, a própria 'desconhecida' ou ela mesma, a viagem.
Depois do grande 'encontro', talvez eles se fixassem em terra firme, para fazer outras viagens protagonizadas agora pelos dois.

Para além do que o seu conto revela, também fascina o que ele omite, o que está implícito; Algo como os gerânios na jardineira
ou a horta ao lado da casa, os discos, as fotos, ou as telas na parede...
Nesse sentido ele permite tantas outras viagens...
Adorei.

Obrigada, um abraço.

Mamifero disse...

Apesar de ter dado " tiros no pé " escrevi o mesmo numa " viagem " ao imaginario dos meus sonhos, tentei que fosse o inicio de um romance , mas ficou-se mesmo por um conto.
Que bom que tenhas gostado de o ler, no fundo ele transporta algo que eu tantas vezes falo como um ideal de vida que todos deviamos ter, por isso não revelo pormenores das personagens nem uma ideia da propria idade de cada uma, pois pretendo realçar apenas um sentimento de amizade e cumplicidade entre as personagens que penso que consegui em parte deixar expôr na pequena narrativa.
Não é um conto de amor , é sem duvida um conto de cumplicidades.
Obrigado pelo bonito comentario