Passei os portões, já passava das 22.30hrs, estacionei o carro, avancei para a porta e só parei junto a um pequeno balcão onde fui simpaticamente recebido com um :
- Boa Noite, em que posso ajudar ?
-Quero falar com um medico ………
A simpática só não disse … este gajo deve ser louco, pois estávamos num hospital psiquiátrico.
Em poucos minutos fui respondendo a perguntas simples sobre a minha identidade , como não estava louco varias das informações que dei foram falsas, mais tarde confessei este pecado á Dra. que me atendeu ou me aturou a paranóia que se apoderou da minha pessoa naquela noite gelada.
Fiquei sozinho por largos minutos numa sala confortável, recheada de livros e confortáveis sofás sobre uma temperatura ambiente agradável , confesso que procurei no tecto e nas paredes a possível existência de uma cam de filmar pois senti que aquele isolamento era já parte do diagnostico.
Entrou uma Senhora, hoje consigo dizer que a sua idade deve rondar os 30 anos, não tinha a habitual bata medica, e de forma cordial cumprimentou-me com um Olá tudo bem ? e um sorriso bonito e confiante .
Dra 1 – Paciente 0
Aqui na ficha diz que você quer falar com um medico… pode começar
Não vos vou narrar o que falei durante horas pois corria o risco de perder os “clientes” deste blogge logo no seu primeiro post, mas falei bastante, escutei o suficiente, chorei muito, e sorri varias vezes, talvez por ser um quarentão os meus desabafos tiveram o seu inicio no casamento falhado, na frustração de ter falhado em algo em que tanto apostei , passeamos pela separação e divorcio, a filha a frustração de um pai que nunca tem direito á custodia da filha, os valores incríveis que os tribunais aplicam como pensão de alimentos, etc,etc.
-Desculpe, mas sinto que esta a dar palha ao burro
- Não entendi
- Se quer falar sobre seu problema pode falar , tenho toda a noite para o escutar, mas não me de palha pois já jantei e bastante bem .
Fiquei gelado e em silencio , fiquei mesmo furioso, ela pegou num livro, abriu o mesmo e começou a ler ou a fazer que lia e ….
-Assim que quiser falar diga, eu vou lendo o meu livro, é uma historia fascinante.
Dra 2 – Paciente 0
Abri o “livro” falei de tudo, da minha mãe dominadora, do meu pai resignado, dos meus super avos quase centenários da minha filha que amo perdidamente, das paixões que existiram e ainda existem e que não deviam existir , da solidão, das muitas folhas de papel que escrevo com momentos que vejo no meu quotidiano, das conversas com as paredes frias de minha casa que teimam em não responder, falei dos vizinhos e dos que estão no outro lado do atlântico ,falei horas, ela por momentos picava-me obrigando-me a recuar , fez-me chorar, passear pela sala, ameaçar que me ia embora , tudo isto levou horas, eu estava exausto , não sei se o cha servido a meio tinha algo , mas de facto eu estava exausto de tanto falar, chorar, revoltar-me, mas sentia-me bem. Estava mais leve, mais puro, mais vazio.
Aceitei pernoitar no hospital com a condição de ninguém da minha família ou amigos serem avisados, condição aceite ! Dormi bem ,mesmo muito bem, fui acordado por uma enfermeira que me alertou para o pequeno-almoço ela tinha um decote que me fez pensar que estava no paraíso, só depois cai na realidade.
Passei na biblioteca do hospital, li os jornais e iniciei um livro que não me recordo o titulo pois sabia que não o iria terminar, foi esta a minha rotina , o cardápio não era o melhor, mas suficiente e bem melhor que aquele que eu próprio preparo em casa para o meu jantar.
Voltei a conversar com a Dra. Os mesmos assuntos, mas de forma menos emotiva e muito mais racional. perguntou-me se eu me sentia bem para ir para casa, respondi que sim, em troca prometi não escrever tanto em papel, prometi não dar atenção a pequenas coisas que me dizem ou que vejo no meu dia a dia e prometi que iria colocar no sitio as fotos que antes tinha retirado e guardado numa caixa.
Escrevo estas palavras no computador, não escrevi lamentos em folhas de papel, as fotos estão nos sítios ate fui ao shopping fazer uns prints para colocar ou re-colocar duas fotos no frigorifico .
Estou contente comigo mesmo por ter tomado a opção de ter passado aqueles portões, não deixei de estar magoado com quem estava antes, não deixei de gostar de quem gostava antes, mas sinto-me mais leve e consigo sorrir.
Dra 2 – Paciente 3
Eu sei que ela não ficou chateada com este resultado, pois ganhei muito mais que ela .