Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram,
Quando por dentro eu sei que choram.
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Mesmo que chova no Verão,
Queres dizer " Sim " mas dizes " Não "
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Vamos fazer o que ainda não foi feito







segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

Por vezes a minha caneta escorrega no papel sem destino, ontem o resultado foi este.

Era uma noite fria, uma noite gelada como são todas as noites de Natal, naquela casa era uma noite igual a tantas outras, uma noite onde as velas ardiam iluminando as paredes negras de humidade onde pequenas gotas escorriam pelos blocos de pedra.
Como era Natal a mãe antes de jantar aqueceu um pouco de agua na lareira que os aquecia e que servia para cozinhar e deu um banho em cada um dos três filhos , limpou-lhes o ralho que teimosamente lhes cai do nariz e com os dedos calejados do trabalho do campo penteou o cabelo de cada um, deixou os três alinhados em escadinha junto á porta do barraco onde viviam para naquela noite receberem o pai de forma diferente, sim porque era noite de Natal.
O pai entrou e sorriu ao ver os três filhos alinhados beijou cada um deles na testa como sempre faz ao entrar em casa , trazia seguro debaixo do braço algo embrulhado em papel de jornal , olhou a mulher com um sorriso e exclamou :
È noite de Natal temos que dar aos miúdos um pouco de bacalhau , passei na loja e comprei uma cara de bacalhau , vai dar para fazer uma sopa.
Os olhos daquela mulher que a vida tinha envelhecido ficaram carregados de lágrimas pegou no embrulho e pegou no pequeno pedaço de bacalhau para o colocar num caldeirão de ferro que aguentava o fogo directo da lareira, cozinhou com agua , batata e couve uma sopa que propositadamente salgou um pouco para que ninguém sentisse vontade de comer mais, depois de já ser ver o fundo do caldeirão.
Todos bem encostados uns nos outros para resistir ao frio e em frente á lareira comeram a sopa de bacalhau molhando pedaços de pão seco que tinham sido oferecidos pelo Senhor da padaria, era a ceia de Natal possível , onde ninguém reclamou do salgado da sopa e onde o ultimo pedaço de pão foi dividido cientificamente em partes iguais pelo pai para cada um dos filhos.
Numa noite normal aquelas crianças iriam procurar conforto na pequena cama que dividiam, mas era noite de Natal por isso ficaram sentados nos pequenos bancos de madeira, o pai tentou fazer algo diferente e organizou um jogo em que batiam com as mãos uns nos outros e cantavam uma pequena musica de Natal, faziam tempo, construíam sonhos ate chegar a hora de irem á missa do Galo.
Entraram na igreja e os bancos da frente já estavam ocupados por senhoras vestidas a rigor com peles e brincos de ouro e seus maridos engravatados e com casacos de caxemira pura que tinham ceado na companhia do padre da aldeia, timidamente ficaram sentados nos últimos bancos como se não fossem parte do mesmo rebanho , tentaram acompanhar as palavras do prior que falava apenas para a primeira plateia e dizia palavras bonitas como solidariedade, fraternidade, amor ao próximo , palavras que escorregam nas peles e caxemiras dos presentes mas não chegando ao fundo da igreja, antes mesmo da frase “ Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe “ que desta vez tem o acréscimo, abram os presentes e sejam felizes, o padre percorreu a igreja cumprimentando os presentes parando no intervalo de bancos que separava aqueles ditos fidalgos daquela família humilde , e foi nesse intervalo de bancos que lançou um aceno de mão recusando um cumprimentos igual aos restantes, nem por isso deixou de receber um sorriso daquelas crianças que ingenuamente se sentiram abençoadas naquela noite fria de Natal .
No regresso a casa e já com a criança mais pequena dormindo no colo quente da mãe , a filha mais velha dando a mão ao pai perguntou :
Papa , o que são presentes de Natal ?
O pai pegou nela pelos braços levantou o seu corpo franzino e apertou contra o seu e ao ouvido disse-lhe :
Minha filha , presentes de natal , é este abraço que te dou , é o que posso e tenho , mas é puro e sincero e agora dá um igual aos teus irmãos e a tua mãe que eu farei o mesmo.

A todos aqueles que não podem ter um Natal com dignidade , gostaria de abraçar neste momento, aqueles que conseguem ter um Natal digno peço-vos que pensem um pouco nos que nada conseguem ter, pois por certo todos teremos um natal mais feliz.

Autor : Mamifero

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