Para este final de semana , minha filha teve outras opções , fiquei quase sem saber o que fazer, são estes os defeitos das rotinhas , se algo fica diferente ficamos como que perdidos, por isso depois de me levantar e de ter um pequeno incidente ou um mal entendido optei por ir apanhar um pouco de ar , usufruir do Sol brilhante apesar de ser Outono , parei o carro junto ao molhe onde o rio se encontra com o mar onde a agua não é doce nem salgada tal como disse o pescador com quem meti conversa na manha de ontem.
Um Homem a quem não arrisquei perguntar a idade pois certamente seria menos do que o corpo mostrava , tinha apenas uma perna resultado de um acidente de trabalho na construção civil, tinha a cara marcada e queimada de muitas horas ao Sol e á chuva fruto de uma vida dura de trabalho.
Disse-me que a pesca era o seu passatempo a forma de não ficar em casa a chatear a mulher, que dessa forma eram felizes os dois , eu pesco e ela fica com a tv para ver as novelas todas, falamos do mar que ele diariamente observava e já sabia a rotina das ondas donde vinham e para onde iam, foi-me explicando a subida e descida das mares e tudo com uma sabedoria enorme que nenhuma faculdade saberia explicar , falou-me com orgulho da filha que esta a iniciar o ultimo ano de Direito na faculdade de Coimbra , com alegria disse-me que ela lhe leva quase toda a reforma de invalidez mas que vale bem a pena ter esse esforço pois vai ter uma filha advogada e em Coimbra.
Chegada a hora do almoço , perguntou se eu queria ir a uma tasca perto e comer a melhor Alheira que é servida no Porto , não sou um fã deste prato mas resolvi acompanhar o Francisco Matos , pode-me chamar de Xico á pequena tasca ali bem perto , almoçamos uma alheira com batata cozida tomamos café e ate o acompanhei num bagaço que me queimou a garganta , com prazer paguei aquela refeição sempre acompanhada de conversa sabia de quem muito já tinha vivido , foi a infância difícil numa aldeia do interior , a ida para a guerra o adaptar-se á grande cidade em busca de trabalho o casamento sem convidados o nascimento da filha em casa da vizinha e o maldito acidente e meses no hospital para viver sem uma perna.
Foram horas de agradável conversa e sem qualquer peixe morder o isco , situação que em nada o incomodava , o prazer dele tal como dizia era segurar a cana e olhar o mar e na parte da tarde ver o Sol descer calmamente , estou em paz tantas vezes ele me disse .
Já perto da hora de arrumar os apetrechos mordeu um peixe que ele com mestria no uso da cana consegui trazer ate terra firme , pousado na pedra , com o maior cuidado retirou o anzol de forma a não o ferir e para meu espanto pegou nele e lançou de novo ao mar.
Fiquei espantado depois de horas sentado num banco com a cana da mão aquele que era o primeiro peixe tinha acabado de ser devolvido ao mar , não resisti a perguntar o porque …
“ Olhe .. tenho um acordo com os peixes , eles deixam-se sempre apanhar pelo meu anzol e eu tenho o compromisso de os devolver ao mar “
Regressei a casa mais “ rico “ foi um Domingo diferente
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